O diretor franco-grego Constantin Costa Gravas trouxe em seu filme, Estado de Sítio, esta luta interna dos países da América Latina. O longa conta a história do grupo de guerrilheiros Tupamaros que seqüestraram um cônsul brasileiro e um cidadão americano que trabalhava na AID (Agency for International Development) em troca de presos ativistas. Gravas leu no jornal francês Lê Monde que um americano havia sido seqüestrado por guerrilheiros e como as informações da mídia perante este fato estavam fragmentadas, ele resolveu apurar por conta própria os verdadeiros acontecimentos. O filme Estado de Sítio foi o resultado de sua apuração. Gravas usa uma narrativa não linear e seu filme tem um tom jornalístico da denuncia de um fato que foi ocultado pela mídia. Este tipo de abordagem é típico do cinema político: mostrar ao público fatos ocultados, alguns destorcem a realidade, mas a grande maioria consegue passar a história real do nosso mundo.

Viver a realidade do século XXI com as conseqüências do século passado nos dá medo e angustia. Os paises poderosos com sua soberania e poder passam por cima dos princípios básicos de sobrevivência do ser humano. E quem sofre mais são sempre os mais fracos. Vemos a África com todos os seus problemas econômicos e sociais, um continente devastado pelo genocídio e pela colonização, isso sem contar os problemas da América Latina que até hoje sofre as conseqüências da ditadura. Nos perguntamos até onde o ser humano vai parar? Até quando ele vai correr atrás do lucro e do poder passando por cima de tudo que ele encontra pela frente? A humanidade está se auto-destruindo e nossos filhos viverão as piores conseqüências de atos desumanos.
Na época da ditadura os EUA implementou um sistema de aliança do progresso na América Latina para se infiltrar e “ajudar” os países a resolver seus problemas públicos. A AID treinava o policiamento desses países para que fossem usadas várias técnicas de repressão social, métodos de tortura, por exemplo. Gravas mostrou em seu filme uma guerrilha uruguaia audaciosa na qual a policia em troca dos dois seqüestrados tinham que soltar os presos no México, Peru e Argélia. Este foi o segundo comunicado dos Tupamaros mostrado no filme, que levou o governo do Uruguai a acreditar que os guerrilheiros queriam aplicar um golpe sobre a ordem estabelecida impedindo o poder Judiciário de aplicar a lei sobre os presos e condenados por crimes políticos. Está aí o porquê do nome do filme. Será decretado o “Estado de Sítio” quando um país se vê ameaçado por alguma força interna ou externa e quando esta força o impede de aplicar algum preceito constitucional. Filosoficamente, Gravas faz o espectador entrar em Estado de Sítio. Estamos vivendo com medo sempre tem alguém que quer nos impedir de fazer algo, de lutar pelos nossos direitos, de buscar uma vida melhor. No nosso interior declaramos secretamente um Estado de Sítio, o mundo nos impede de aplicarmos nossos princípios morais e somos obrigados a vivenciar guerras e dominação. Se queremos mesmo mudar esta realidade teremos que partir para o papel principal e deixarmos de ser apenas um coadjuvante.

Em 1970 foi a época em que a ditadura estava mais forte, mais poderosa. E a população tinha que viver naquele clima tenso de repressão. Hoje muitos filmes tratam deste tema que tanto assustou a população levando as pessoas a viver um momento de tensão e terror. O filme brasileiro “O Ano em que Meus Pais saíram de Férias”, do diretor Cao Hamburger, diferente de Estado de Sitio, retrata a ditadura de uma maneira mais doce utilizando algumas metáforas para tratar o assunto. O filme fala da maior paixão brasileira que é o futebol. A narrativa está em torno na Copa do Mundo de 1970, mas também aborda a comunidade judaica do centro de São Paulo. O menino Mauro, personagem do ator Michel Joelsas nem imaginava que seus pais estavam fugindo da repressão do governo militar, em contraponto ele convivia com adultos de diferentes culturas e crianças com aquela inocência que é muito diferente das crianças de hoje. A maneira como é contada a historia no longa de Hamburger faz com que os espectadores sempre sejam lembrados que o filme também fala sobre a ditadura, diferente de Estado de Sitio em que ficamos completamente presos e envolvidos na trama principal. Gravas prende a atenção do espectador pela forte tensão dos interrogatórios dos seqüestrados e da reação das autoridades perante a situação de risco que em que se encontravam os seqüestrados e o risco do Estado perder a rédeas do controle político. A guerrilha urbana teve sempre um grande peso nas decisões políticas e vivenciar esta luta de poderes nos trás uma boa bagagem histórica.
Para as pessoas mais velhas que viveram na época da ditadura hoje sobra uma sombra de esperança, uma maneira de olhar para frente e enxergar uma luz no fim do túnel, e para os que não viveram naquela época e tem o regime militar apenas como uma historia pode fazer a sua parte e buscar um futuro melhor. Não sendo apenas um espectador, mas sim uma pessoa de atitudes sérias para juntos construirmos um mundo melhor. Permitiremos que caiam as mascaras.
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