
Seguirmos com ele a passagem do tempo e as ondas políticas que nos contagiam. Partícipes de inquietudes, equívocos, erros e euforias, a história que se reconstrói tem os toques de um mestre benevolente. Ele nos revela logo no começo de seus diários ter se cansado um dia do cinema convencional para se interessar por isso que ele nos deixou como legado: um arquivo precioso de imagens que equivale ao resgate de uma grande memória, repleto de flagrantes do inconsciente coletivo.
O Diário de David Perlov começa com sua doce retórica: "Maio, 1973, eu compro uma câmera. Eu começo a filmar eu mesmo e para mim mesmo. O cinema profissional não me interessa mais.
Eu filmo dia após dia à procura de outra coisa. Eu procuro antes de tudo o anonimato. Eu preciso de tempo para aprender a fazer isso."E essa emocionante oratória vai terminar em 1983, com premonitórias passagens pela cidade em que nasceu (Rio de Janeiro) e a cidade onde cresceu
(São Paulo).

David Perlov escreveu um grande livro ao longo de dez anos. Um livro que seria incompleto sem as imagens de seu magnífico Diário. Seus filmes em forma de diário também seriam incompletos sem os seus textos de profunda humanidade e suas questões sobre a nossa temporalidade. As imagens e os comentários de David Perlov são pretextos para uma causa bem maior que poucas vezes o cinema atingiu ao longo de sua história de tantas emoções: os textos, os pensamentos de Perlov, formam uma obra literária que não cabe em si de tão intensa e sincera, que se completa com as imagens despretensiosas desta que é a maior aventura humana: o espanto diante da própria vida, da vida real.
Ao voltar a São Paulo, passando pela Estação da Luz, David Perlov pergunta ao seu paciente espectador, quase ao final da sexta e última parte do Diário: "Não terá sido aqui, vendo estas imagens (do enquadramento de uma janela de trem), que o meu amor ao cinema nasceu?" E talvez sim, talvez não, inspirado nos pensamentos de Glauber Rocha, Perlov sentencia: "Esta câmera na cabeça é uma máscara!". Ao final desta extraordinária leitura cinematográfica, fechamos o filme com um grande ensinamento do mestre David Perlov. Ele acaba de nos fazer ver que nada do que vivemos é em vão.
Por Leon Cakoff