sábado, 10 de abril de 2010

Lições de Humanidade de David Perlov.

Há lições fundamentais no cinema de David Perlov. O seu Diário, rodado informalmente ao longo de dez anos, recompõe sem pressa a vida que passa e nos sugere um singelo exercício de paciência para decifrar o melhor de nossa humanidade. Ao observarmos com ele ou através de suas lentes os movimentos cotidianos, de vidas privadas, a sua própria existência e o entorno de sua família, vamos perceber a importância de pequenos atos e gestos que formam vagarosamente o admirável mosaico da grandeza humana.


Seguirmos com ele a passagem do tempo e as ondas políticas que nos contagiam. Partícipes de inquietudes, equívocos, erros e euforias, a história que se reconstrói tem os toques de um mestre benevolente. Ele nos revela logo no começo de seus diários ter se cansado um dia do cinema convencional para se interessar por isso que ele nos deixou como legado: um arquivo precioso de imagens que equivale ao resgate de uma grande memória, repleto de flagrantes do inconsciente coletivo.

O Diário de David Perlov começa com sua doce retórica: "Maio, 1973, eu compro uma câmera. Eu começo a filmar eu mesmo e para mim mesmo. O cinema profissional não me interessa mais.

Eu filmo dia após dia à procura de outra coisa. Eu procuro antes de tudo o anonimato. Eu preciso de tempo para aprender a fazer isso."E essa emocionante oratória vai terminar em 1983, com premonitórias passagens pela cidade em que nasceu (Rio de Janeiro) e a cidade onde cresceu
(São Paulo).


David Perlov escreveu um grande livro ao longo de dez anos. Um livro que seria incompleto sem as imagens de seu magnífico Diário. Seus filmes em forma de diário também seriam incompletos sem os seus textos de profunda humanidade e suas questões sobre a nossa temporalidade. As imagens e os comentários de David Perlov são pretextos para uma causa bem maior que poucas vezes o cinema atingiu ao longo de sua história de tantas emoções: os textos, os pensamentos de Perlov, formam uma obra literária que não cabe em si de tão intensa e sincera, que se completa com as imagens despretensiosas desta que é a maior aventura humana: o espanto diante da própria vida, da vida real.

Ao voltar a São Paulo, passando pela Estação da Luz, David Perlov pergunta ao seu paciente espectador, quase ao final da sexta e última parte do Diário: "Não terá sido aqui, vendo estas imagens (do enquadramento de uma janela de trem), que o meu amor ao cinema nasceu?" E talvez sim, talvez não, inspirado nos pensamentos de Glauber Rocha, Perlov sentencia: "Esta câmera na cabeça é uma máscara!". Ao final desta extraordinária leitura cinematográfica, fechamos o filme com um grande ensinamento do mestre David Perlov. Ele acaba de nos fazer ver que nada do que vivemos é em vão.

Por Leon Cakoff

segunda-feira, 15 de março de 2010

A realidade invade o cinema nacional

O gênero da não ficção está atraindo, timidamente, os brasileiros a conhecerem sua própria historia. Com uma linguagem pedagógica os documentaristas narram historias verídicas que chocam muita gente que não faz parte daquela realidade.

O filme Tropa de Elite gerou muita repercussão e chocou a sociedade com aquela realidade que muita gente não tem noção que pode acontecer. E para as comunidades carentes o filme contou a historia de suas vidas, da dificuldade de morar em um fogo cruzado entre polícia e bandido.

O filme Ultima Parada 174, de Bruno Barreto, foi baseado no documentário Ônibus 174, de José Padilha e conta a historia da mulher que adotou o protagonista como filho. O diretor se baseou em uma historia trágica para contar uma historia de amor entre uma mãe e um filho. Ambos narram historia da realidade do Brasil: a violência e o amor.

O cinema brasileiro está utilizando muitas ferramentas do documentário como a câmera na mão, atores não profissionais que vivem a realidade da narrativa filmada, a veracidade dos fatos, a luz natural que aqui entre nós, é fantástica com tons fortes e expressivos. É o jeitinho brasileiro de entrar em uma discussão sobre os problemas sociais utilizando os recursos naturais.

O cinema pega a realidade do documentário coloca fantasia na narrativa por isso q fica tão próximo de nós. Muitos saem da sua realidade social e vai filmar o outro. Do outro lado da ponte, do outro lado do morro, do outro lado da vida. São historias que acontecem todos os dias.

Antes de o cinema ter todo esse sucesso, quem discutia os problemas sociais do país era a literatura. Hoje o cinema toma esse papel para si e é com ele que os brasileiros encontram uma maneira eficaz de discutir seus problemas.

Com essa proximidade da realidade a ficção se inspira no documentário para contar histórias de amor e guerra. A ferramenta utilizada por ambos é a imprevisibilidade. Os cineastas saem de casa sabendo o que eles querem e com uma idéia pronta na cabeça, mas não sabem o que vai aparecer para que suas lentes possam captar o outro. A narrativa se desenvolve a partir do olhar sensível do diretor e contar historias se transforma em algo mágico e quem ganha é sempre o espectador que no final vê uma narrativa próxima da nossa realidade. Uma espécie de é tudo verdade, para chacoalhar a sociedade e tentar abrir os olhos dos que insistem em fechar.

Vamos ver como será esse cenário nos próximos dez anos. Como diz João Moreira Salles: “agora eu quero ver um índio fazendo um filme sobre um cineasta.”

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Guerras

Todos os anos diversos diretores e produtoras cinematográficas lançam filmes sobre guerras. Milhões de dólares são investidos num tema extremamente saturado. Não sei se é pelo fato de ainda estarmos em guerra ou é falta de assunto mesmo. E o pior de tudo é que tem gente que gosta de ver o sangue jorrar.

Pelo bem ou pelo mal, em meio aos soldados e parafernálias, três filmes do gênero me chamam a atenção:

O Pianista, dirigido por Roman Polanski, vencedor de três Oscars, conta a história de um homem que sobreviveu ao holocausto e mostrou que por pior que seja uma situação de morte, nós nunca podemos esquecer o que somos. Polanski fez direitinho a lição de casa, está na minha lista dos 10 melhores filmes.



O Menino do Pijama Listrado, dirigido por Mark Herman, foi baseado no livro de mesmo nome do autor Irlandês John Boyne. A diferença deste filme é que vemos a guerra pelos olhos inocentes de uma criança. Um filme simples e curto, mas que cumpre o papel de emocionar e faz-nos refletir mais uma vez sobre a crueldade do homem.



O aclamado A Vida é Bela, de Roberto Benini, é um caso à parte. Filme extremamente inteligente misturando comédia e drama oferecendo uma leitura completamente diferente sobre o sofrimento. A obra teve uma recepção fria aqui no Brasil porque para muitos Benini “roubou” o Oscar de melhor filme estrangeiro de Central do Brasil. Mas de fato o longa italiano mereceu o prêmio da academia. Uma lição de vida exposta num filme original de sensibilidade única.



Mesmo achando que já viu tudo sobre o nazismo, desde os filmes mais antigos até os atuais, não deixe de ver as obras citadas à cima. Um bom filme é aquele capaz de gerar sensações que correspondem ao gênero para o qual ele foi feito.